Frequência Espiritual

Na penúltima segunda-feira, dia 18 de maio de 2026, fui surpreendida por uma sensação profunda de vazio que me fez perceber, de forma muito clara, que talvez estivesse na hora de recalcular a rota e voltar para a igreja. Nos últimos tempos, minha frequência espiritual vinha sendo bastante rara e oscilava entre visitas ocasionais à igreja católica e ao centro espírita kardecista, mas, apesar de buscar respostas nesses lugares, eu ainda sentia que faltava alguma coisa essencial dentro de mim, como se eu estivesse constantemente tentando preencher um espaço que insistia em continuar desocupado. Pensando melhor sobre o meu passado, compreendi que o único lugar onde eu havia me sentido verdadeiramente acolhida, em paz e conectada espiritualmente de forma genuína foi na Igreja Quadrangular, um ambiente que acabou ficando para trás depois da minha última separação, quando fui deixando a rotina espiritual de lado e me distanciando de algo que antes me fazia tão bem. Naquele dia específico, o vazio falou mais alto e a exaustão de tentar ignorar essa falta me impulsionou a buscar uma reconexão comigo mesma e com a minha fé, mesmo sem ter todas as respostas prontas.

Essa história com a Igreja Quadrangular começou de uma forma muito particular durante o meu último casamento, época em que ele era evangélico e eu me identificava como espírita. Como nunca fui uma pessoa presa a dogmas rígidos de uma única religião e sempre acreditei que todas as vertentes possuem pontos positivos e negativos, aceitei a proposta dele de frequentarmos juntos a igreja evangélica, já que para mim o que realmente importa é o que existe no coração da gente diante de Deus. A única condição que impus na época foi a de não frequentar uma linha pentecostal, o que nos levou à excelente ideia de visitar uma igreja diferente a cada final de semana para continuarmos naquela onde nos sentíssemos melhor acolhidos. Foi assim que descobrimos esta igreja e passamos cerca de dois anos frequentando a Quadrangular, onde me adaptei tão bem que cheguei até a me batizar, mas todo esse envolvimento desmoronou quando o relacionamento terminou por causa de uma infidelidade, gerando em mim uma decepção tão profunda que acabei enxergando tudo através da lente da mágoa, generalizando a hipocrisia da atitude dele para a instituição da igreja como um todo e me afastando completamente de uma rotina espiritual.

Hoje, com o distanciamento do tempo, percebo que confundi a falha de uma pessoa com a essência da minha própria fé, e foi justamente essa clareza que me deu coragem para ir ao culto daquela segunda-feira sem ter a menor ideia do que me esperava. Ao chegar lá, descobri que as reuniões daquele dia eram tipo o “Culto do Impossível”, um momento voltado especificamente para entregar nas mãos de Deus tudo aquilo que nos aflige, nos machuca ou necessita de socorro e direção espiritual. Sentada no fundo do salão, bem afastada e sem ninguém por perto (este sempre foi meu cantinho preferido), aproveitei o momento da oração para conversar com Jesus em silêncio, desabafando sobre as minhas dores, os medos acumulados e aquele vazio crônico que eu carregava há tanto tempo. No meio desse desabafo silencioso, um irmão cruzou o corredor, parou em pé ao meu lado esquerdo, segurou minha mão esquerda e colocou a outra mão sobre a minha cabeça em um gesto que, para quem tem vivência no espiritismo, assemelhava-se muito a um passe espiritual. Enquanto ele orava em um tom que eu podia o escutar, suas palavras tocavam feridas tão íntimas que parecia que o próprio Jesus estava o usando para me acolher e conversar diretamente comigo, me proporcionando uma experiência espiritual inédita e que fez as minhas lágrimas descerem sem controle, libertando tudo o que estava preso no meu peito e me deixando, ao final de tudo, com a maravilhosa e reconfortante certeza de me sentir, pela primeira vez em muito tempo, verdadeiramente amada por Deus.

O fato de todos na igreja estarem realizando suas orações em voz alta criou um ambiente acolhedor onde não me senti exposta ou constrangida em momento algum, permitindo que eu me entregasse totalmente àquele instante em que o irmão, guiado por uma sensibilidade profunda, dizia que Deus estava cuidando da minha angústia mais íntima (um reflexo dessas recaídas na depressão que às vezes me assaltam), além de zelar pela minha família e me assegurar de que todos os problemas que venho acompanhando de perto encontrarão uma solução.

Amparada por essa experiência, consegui trabalhar bem durante o restante da semana, enfrentando apenas um momento mais difícil durante o final de semana, conforme já compartilhei com vocês no meu post anterior. Ontem, movida pela expectativa de reviver aquela mesma intensidade, retornei à igreja esperando sentir a exata emoção da segunda-feira passada, mas acabei descobrindo, na prática, que existem dias e dias, e que a espiritualidade não se repete da mesma forma. 

Nesta última segunda, a sensação de acolhimento deu lugar a um sentimento de pressão, pois vários irmãos começaram a se aproximar para me abraçar e afirmar que o Senhor tinha uma grande promessa e um ministério importante reservado para mim, reações diante das quais eu não conseguia esboçar nada além de uma nítida cara de surpresa. Ao perceber que eu havia ficado visivelmente pensativa com aquelas palavras, uma das irmãs tentou me tranquilizar acrescentando que seria algo que eu realmente gostava de fazer, mas foi justamente aí que a situação se complicou na minha mente, engatilhando uma série daquelas crises existenciais que nos paralisam. Saí de lá inundada por questionamentos profundos sobre quem eu sou, o que eu gosto de fazer e qual seria o meu real dom nesta vida, transformando o que deveria ser um momento de calmaria em um espelho cheio de perguntas que eu ainda preciso aprender a responder. 

Para além desse momento em que me senti pressionada e imersa em pensamentos, a verdade é que o culto em si não teve a mesma energia da semana anterior, o que pode ser explicado por fatores simples, como a presença de um pregador diferente ou de outros músicos na condução do louvor, mas essa própria oscilação me deixou um aprendizado valioso. 

Compreendi que a nossa jornada espiritual não é linear e que, se você foi à igreja um dia e a experiência não correspondeu às suas expectativas, o segredo é insistir e ir de novo, pois nenhum dia é igual ao outro e cada momento traz a sua própria colheita. No fim das contas, entendi que a igreja não é o lugar onde encontramos todas as respostas prontas, mas o espaço seguro onde finalmente temos coragem de fazer as perguntas certas. 

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