Quando as ideias não batem mais
Existem conversas que começam do nada e acabam revelando muito sobre quem somos. Outro dia, me perguntaram por que meu último relacionamento terminou. A resposta é profunda: nossos jeitos de ver a vida eram diferentes demais. Não faltou carinho, mas chegou um ponto em que não dava mais para ignorar que a gente pensava de formas opostas sobre o mundo, principalmente sobre as dificuldades que as pessoas enfrentam na sociedade.
No meu antigo relacionamento, isso causava animosidade. Eu acredito que nem todo mundo começa a vida com as mesmas chances e que existem barreiras reais no caminho de muitos. Já a outra pessoa achava que tudo dependia apenas do esforço de cada um. O problema é que essa diferença de pensamento não fica só na conversa; ela aparece nas escolhas do dia a dia e no modo de tratar os outros. Tentar manter uma relação assim cansa, porque você começa a abrir mão do que acredita para não brigar.
Recentemente, passei por algo parecido conversando com uma profissional que eu admiro muito. Apesar do respeito, as opiniões dela são o contrário das minhas, especialmente sobre as cotas nas faculdades. Ela usou o exemplo do próprio filho para dizer que não concorda com essa política. Ela explicou que ele é negro e que ela teria todo o dinheiro necessário para pagar uma faculdade particular para ele, mas, mesmo assim, ele não demonstra interesse nenhum em estudar. Para ela, isso prova que as cotas podem tirar o lugar de quem "quer mais" ou se esforça mais.
Mas é aí que a gente se engana. Não podemos pegar um caso isolado e achar que todo o resto funciona assim. Leis e projetos para a população são feitos com base no que acontece com a maioria, não com base em exceções. As cotas não servem para dar "moleza" para quem não estuda. Elas existem porque, na história do nosso país, o ponto de partida nunca foi igual para todos. O fato do filho dela ter condições financeiras e não querer estudar é uma escolha pessoal dele, mas isso não apaga a realidade de milhares de outros jovens que querem muito uma oportunidade, mas são barrados pela cor da pele ou pela falta de dinheiro.
No fim, essas situações mostram que não é só uma questão de opinião, é uma questão de valores. E valores são coisas que a gente não consegue negociar por muito tempo. Perceber isso pode ser chato no começo, mas traz um alívio. Nem todo contato precisa ser mantido, principalmente quando, para estar com alguém, você precisa deixar de ser quem você é.
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