Quando a visita deixa de ser bem-vinda

O texto de hoje é mais um desabafo do que uma observação sobre algo bom.

Sabe quando pequenas situações vão se acumulando até você perceber que já não consegue mais ignorá-las? Foi exatamente assim que me senti neste fim de semana, depois de observar algumas atitudes que, por muito tempo, minha família fingiu não enxergar.

Meus pais moram em outra cidade e eu costumo visitá-los de 15 em 15 dias. Cheguei lá na sexta a noite e passei um tempo com minha mãe na mesa da cozinha bebendo vinho e comendo algumas besteiras que eu tinha levado. Durante a conversa, ela comentou que, no fim de semana anterior, quando eu não fui visitá-los, eles receberam visitas e ela ficou muito estressada. Disse que meus tios não avisaram com antecedência, o que para mim já não é novidade. Mas dessa vez eles ainda levaram amigos, como se a casa dos meus pais fosse extensão da casa deles. Isso foi ainda mais desrespeitoso.

No dia seguinte pela manhã estava com meu pai no pomar, enquanto comíamos tangerinas e mexericas (Sim galera, não é a mesma fruta) conversamos sobre varias coisas. Ele comentou que, no domingo anterior, colocou uma roupa velha para limpar o galinheiro e, do nada, as visitas chegaram. Isso o deixou muito irritado, porque ninguém avisou antes e ele estava todo sujo. Meu tio ainda reclamou que ele estava com cheiro de galinheiro perto da visita, mas meu pai, irritado por não terem avisado da visita, não trocou de roupa de propósito, por teimosia e revolta.

A questão de não avisar já me incomodava há muito tempo, mas fiquei surpresa ao perceber que meus pais, em momentos diferentes, disseram ter ficado desconfortáveis com a situação. Pela primeira vez, eles falaram sobre como realmente se sentiram. E, sinceramente, isso já me parece uma grande evolução. Meus pais foram criados para nunca reclamar e nunca desagradar ninguém. E ensinaram isso para nós três, as filhas.

Hoje, com acesso à internet e até vídeos sobre terapia, nós três estamos aprendendo que não é assim que a vida funciona. Quando algo nos incomoda, precisamos falar e impor limites. Caso contrário, as pessoas passam a agir como se a nossa mente e o nosso espaço fossem terra sem lei.

Neste último fim de semana, mais uma vez apareceu a famosa visita inconveniente. E várias coisas me incomodaram. Percebi que meu tio sentou-se ao lado do meu pai e começou a se vangloriar sobre como o patrão dele é maravilhoso e sobre quanto dinheiro conseguiu juntar com salário e aposentadoria. Isso me incomodou muito, porque ele sabe que meu pai está passando por um momento difícil, aguardando a conclusão de um processo trabalhista e a aposentadoria rural.

Depois disso, nos reunimos na cozinha, porque minha mãe tinha acabado de fritar bolinhos de espinafre. E eu estava morrendo de saudade desses bolinhos. As visitas sentaram à mesa para comer e beber, sem ter levado absolutamente nada.

Minha prima, que é o reflexo do pai inconveniente, sempre pergunta “como você está?” apenas para encontrar uma brecha e começar a falar da própria vida, se vangloriando de coisas sem sentido.

O assunto chegou em caminhada. Eles começaram a discutir quem conseguiria fazer o percurso de Chácara-MG até o Santuário da Água Santa, em Bicas-MG. Minha prima afirmava, cheia de certeza, que conseguiria tranquilamente, enquanto eu e minha irmã mal prestávamos atenção na conversa.

Então, do nada, meu tio virou para mim e disse que eu engordei. Eu realmente não consigo entender como uma pessoa consegue ser tão sem educação. E pior: ainda achar normal fazer um comentário desses. Respondi que talvez eu tivesse ganhado peso, mas isso significava que não faltava comida na minha mesa. 

Meu pai, que acredita que nunca devemos responder os mais velhos, ficou claramente envergonhado e permaneceu em silêncio. Tudo isso somado às piadas idiotas, ao famoso humor de “tio do pavê”, e ao fato de ele ficar irritado quando ninguém dá atenção para as brincadeiras sem graça dele. Quando percebe que ninguém está dando palco, já chama a família para ir embora emburrado.

Meu pai, sempre gentil, ainda pega sacolas plásticas e oferece tudo o que tem na horta: alface, couve, chuchu e o que mais tiver. E eu estou começando a achar essa postura completamente errada. Ninguém oferece ajuda para capinar, plantar ou cuidar da horta. Ninguém leva sequer uma muda para repor aquilo que foi levado embora.

A verdade é que a família se acostumou a ir para a casa dos meus pais para “fazer feira”, falar pelos cotovelos e deixar um clima pesado. E isso também atrapalha o pouco tempo de privacidade que eu gostaria de ter com meus pais e minhas irmãs.

Enquanto meu pai colhe as verduras para eles levarem, meu tio ainda fica comentando que o portão está enferrujando, que tem uma árvore frutífera morrendo, que isso precisa de manutenção, que aquilo precisa ser arrumado. E isso me irrita ainda mais. Como alguém vai até a casa de outra pessoa para reparar defeitos, se mostrar superior, apontar problemas, ofender os outros e agir como dono do lugar?

E sabe qual é o plot twist?

Essa mesma pessoa vive reclamando de tudo que acontece na casa dos meus pais, mas no fim quer copiar exatamente tudo da casa dos meus pais. Copiou a planta da casa, quis contratar o mesmo pedreiro — que recusou o serviço porque já conhecia o tipo de pessoa que ele é — e isso virou motivo para falar mal do profissional. Também quis contratar o mesmo serralheiro da cobertura e o mesmo marceneiro que fez os armários da cozinha e do banheiro.

Sinceramente, fui embora da casa dos meus pais com o coração pesado. Não pela bagunça, pelas piadas sem graça ou pelos comentários inconvenientes, mas pela sensação de que, muitas vezes, o conforto e a paz deles acabam ficando em segundo plano para agradar outras pessoas.

Acho que chegou o momento de alguns limites começarem a existir. Não para afastar a família, mas para preservar aquilo que deveria ser o mais importante: o bem-estar de quem vive naquela casa.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quando as ideias não batem mais

A vida não é curta

Frequência Espiritual